Feira do Livro de Ribeirão Preto espera público maior e foca em projetos de formação de leitores

Começou neste domingo (9), em Ribeirão Preto (SP), a segunda maior feira do livro do Brasil. Os organizadores estão otimistas e esperam um aumento de cerca de 10% no público e 20% nas vendas em relação à edição de 2018. No ano passado, 180 mil pessoas passaram pelo evento, que teve aproximadamente 250 atividades. Já na edição de 2019, que terá cerca de 100 atividades a mais, a organização espera receber 220 mil visitantes e, com isso, alavancar o comércio de livros e periódicos. São 40 estandes de editoras e livrarias espalhados pela Praça XV de Novembro, no Centro, até o próximo domingo (15) – quatro lojas a mais do que em 2018; dentre elas, a do grupo Companhia das Letras, cujo catálogo, que abrange 16 editoras, promete títulos diferenciados. A presidente da Fundação do Livro e Leitura, Dulce Neves, diz que os vendedores estão animados e prometem preços baixos para conquistar os leitores.
Parte do entusiasmo vem de que, em 2018, a venda de livros aumentou 4,6% em comparação com o ano anterior, de acordo com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). “Foram quase 45 milhões de livros vendidos, então isso mostra que, apesar de toda essa crise, o Brasil está lendo mais. O brasileiro está lendo mais, e isso nos dá esperança”, diz. A projeção de aumento de 20% nas vendas é otimista demais para o professor de economia Luciano Nakabashi, da Universidade de São Paulo (USP). Ele compara a expectativa dos organizadores da feira com as vendas dos shoppings centers no Dia das Mães, que tiveram alta de 9,4% em relação ao ano anterior, de acordo com a associação que representa o setor. “É difícil prever pela instabilidade econômica, que está oscilando muito de mês a mês, mas pela conjuntura econômica e pelo tipo de produto, as projeções são muito otimistas. As pessoas também estão substituindo o tipo de leitura, do impresso para o digital”, avalia Nakabashi.
Em 2013, a feira passou por uma remodelação. Os grandes shows, responsáveis por atrair grande público, ficaram fora da programação nos anos seguintes e o foco se voltou inteiramente para a leitura. O planejamento para a próxima edição começa a ser feito ao fim da atual. O processo passa pela escolha do tema, dos autores convidados para as discussões, os projetos que serão desenvolvidos para estimular o hábito da leitura. “Você tem um desafio de programação, que precisa ser muito atrativa e precisa cumprir o objetivo dentro daquilo que a gente pensou. No caso, este ano o desafio era construir uma programação inteira que pudesse conversar com o tema proposto, que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”
Incentivos e projetos
Em 2015, a feira perdeu um dos principais fomentadores. O projeto ‘cheque-livrinho’, que distribuía um cartão para que alunos de escolas públicas comprassem livros na feira, deixou de ser aplicado. Em 2014, os estudantes tiveram R$ 18 para gastar. O programa era financiado pelos governos estadual e municipal. “Isso é negativo, porque era uma forma de democratizar o acesso [ao livro]”, afirma Neves. “Se a pessoa tiver R$ 20 na mão, ela não vai comprar livro se estiver precisando comprar leite, mas neste caso não, [porque] era um recurso destinado para compra de livros.” A presidente diz que não desistiu do projeto e todo ano tenta reatar a parceria com o governo, mas a resposta tem sido negativa. Ela acredita que, com a democratização do acesso ao livro, a chance de as crianças e dos adolescentes se tornarem leitores é muito maior, e um adulto leitor, por sua vez, pode transformar o mundo.
“O conteúdo de um livro guarda o poder da educação, e é com esse poder que conseguimos moldar o futuro e transformar vidas. Primeiro, a gente vai transformar a gente; depois, a gente vai transformando os outros e a sociedade”, diz, parafraseando Malala Yousafzay, ativista indiana que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por sua luta pela educação. A Feira do Livro de Ribeirão Preto desenvolve projetos para formar leitores, por meio de palestras e oficinas. Em 2019, o projeto ‘Combinando Palavras’ atenderá cerca de oito mil alunos da rede estadual e municipal, que terão a oportunidade de conhecer os autores que trabalharam em sala de aula durante os últimos meses e mostrar para eles o que criaram a partir do que leram. “Com este projeto, a gente não forma apenas leitores. A gente descobre grandes autores. A gente vê que essa meninada tem capacidade de produzir, de desafiar uma folha em branco e se tornar autor também. [Eles] precisam de oportunidade para isso”, diz Neves.
Agenda criada pela ONU
O tema dos encontros do ‘Combinando Palavras’ e das demais atividades da Feira do Livro são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Trata-se de uma agenda criada pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) com objetivo de promover igualdade social e de gênero, preservação da natureza, entre outros benefícios para a humanidade. A ONU dividiu o projeto em 17 objetivos com 169 metas para serem alcançadas até 2030. “[Essas metas] só serão possíveis através das palavras: da literatura e das discussões. Primeiro, a gente tem que transformar as ideias para, depois, transformar isso em comportamento e atitudes práticas”, afirma a presidente da feira do livro.
Para Dulce, a feira vai ajudar a população a compreender os desafios para a transformação da sociedade e que também é necessário que cada um reflita sobre formas de ajudar a construí-la. “Como você faz a pessoa pensar, adquirir conhecimento e crescer? É através da literatura. As pessoas só vão se transformar se elas tiverem essa condição de conhecimento, senão elas vão ser repetidoras de informação. Elas vão repetir o que os outros falam. Com livro na mão, não. Com livro na mão, elas vão entender outro universo.” A Feira do Livro acontece até o próximo domingo (15), com atividades diárias em praças, bibliotecas, teatros e escolas de Ribeirão Preto. Os estandes de livros na Praça XV de Novembro estarão abertos todos os dias, das 9 às 20h.

Fonte: G1