Agosto se foi e com ele inúmeras Anas, Marias, Alices, Marílias, Isabelas, Júlias, mortas no Brasil e no mundo, vítimas do feminicídio. E essa situação aumentou consideravelmente nesses meses de confinamento e distanciamento social devido a Covid-19. As vítimas ficaram mais vulneráveis e seus algozes mais confiantes da impunidade pela violência que impõem contra suas esposas, namoradas ou filhas. São mulheres que perderam a sua voz e suas vidas. Vidas essas, que estão sujeitas a todas as formas de violência: verbais, morais, emocionais, físicas e sexuais, culminando muitas vezes com a morte.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou um aumento de 22% dos casos de feminicídio em 12 estados do país entre março e abril em comparação com o mesmo período do ano; estados como o Acre, Mato Grosso e Maranhão merecem destaque pelos percentuais alarmantes de feminicídio. Nestes estados o crescimento foi, respectivamente de 300%,150% e133%.
Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em abril deste ano houve um aumento de 40% de denúncias registradas por meio do 180 em relação ao ano anterior.
Essa realidade tem provocado a sociedade a pensar medidas como a Lei 14.022/20, em vigor desde o último dia 08/07, formulada por parlamentares da bancada feminina de diferentes partidos políticos. A nova lei assegura o pleno funcionamento, durante a pandemia de Covid-19, de órgãos de atendimento à mulheres, assim como crianças, adolescentes, pessoas idosas e cidadãos com deficiência, vítimas de violência doméstica ou familiar. O atendimento às vítimas é considerado serviço essencial e não poderá ser interrompido enquanto durar o estado de calamidade pública causado pelo novo Coronavírus. Denúncias recebidas nesse período pela Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (Ligue 180) ou pelo serviço de proteção de crianças e adolescentes com foco em violência sexual (Disque 100) deverão ser encaminhadas às autoridades em até 48 horas.
A lei também exige que os órgãos de segurança criem canais gratuitos de comunicação interativos para atendimento virtual, acessíveis por celulares e computadores facilitando também a solicitação de medidas protetivas de urgência.
A violência durante a pandemia assusta, mas o ciclo de horror contra as mulheres é estrutural. No Brasil 1 a cada 4 mulheres já sofreram alguma violência.  Diante disso, o que fazer? Como sanamos essa ferida que dói na alma de toda mulher, seja ela vitimada ou não?
Como barrar a mão do agressor que, ao invés de distribuir carinho, distribui dor e destruição?
Acredito que só venceremos esse mal com a igualdade de gênero, com o empoderamento, com o apoio ao empreendedorismo feminino, com a alfabetização de todas as mulheres, sejam elas crianças, adolescentes, adultas ou idosas.
Conhecer seus direitos, ter um meio de subsistência, e acima de tudo perder o medo da denúncia são alguns dos caminhos no combate à violência contra a mulher. Mas precisamos de mais, muito mais, precisamos de políticas públicas eficientes, de leis que protejam a mulher e seus filhos, precisamos de educação não machista e atendimento ao agressor para que o ciclo não continue. Precisamos de mulheres em cargos onde possam ter a oportunidade de mudar a realidade de outras mulheres, mais mulheres na política, no meio empresarial e sindical.
No mundo do trabalho a mulher também sofre de violência e essa, também é dolorosa: seu salário é menor do que o dos homens, sua carga horária é acrescida pelas horas em afazeres intermináveis, no cuidado com a casa e com os filhos, precisa se dedicar muito mais para ser valorizada e nem sempre é ouvida e respeitada como merece, por colegas e superiores. Muitas vezes sofre com o assédio moral e sexual no ambiente de trabalho. O pior de tudo é que ainda se olha para as vítimas de violência e assédio como se ela fosse a culpada, a responsável, como se merecesse essa injúria.
Eduquemos nossos garotos para se quebre essa corrente de violência, a educação não machista e a igualdade de gênero deve ser ensinada desde o berço para que nenhuma Ana, Maria, Alice, Marília, Isabela, Júlia, figurem mais em aterradoras estatísticas como temos hoje no mapa da violência contra a mulher. Que não precisemos mais de uma cor para simbolizar a luta contra a violência contra as mulheres, que o tom da relação entre mulheres e homens, seja o da Paz.