Ao todo, 94 amostras de pacientes infectados foram analisadas por pesquisadores do Hospital das Clínicas, do Hemocentro e da faculdade de medicina da USP.

Mutação do coronavírus — Foto: JN

Um estudo identificou 12 casos da variante brasileira do coronavírus em Ribeirão Preto (SP) e em Serrana (SP). O anúncio foi feito na tarde desta segunda-feira (22) por pesquisadores do Hospital das Clínicas (HC) e do Hemocentro, durante coletiva de imprensa.
Segundo a pesquisa, conduzida em parceria com a faculdade de medicina da USP, 94 amostras de pacientes tiveram o RNA sequenciado, das quais cinco positivas são de Ribeirão Preto e sete são de Serrana.
A cidade vizinha a Ribeirão Preto participa de um estudo inédito do Instituto Butantan para medir a eficácia da vacina contra o vírus.
Mutação, variante, cepa e linhagem: entenda os termos
As amostras, de acordo com o pesquisador Rodrigo Calado, do Hemocentro de Ribeirão Preto, são de pacientes que testaram positivo para o novo coronavírus entre o fim de 2020 e janeiro de 2021.
“Foram 94 testes de amostras até hoje e encontramos 12 indivíduos com a variante manauara, o que dá 13% de positividade. Isso varia um pouco de que tipo de paciente é, mas, na população em geral, isso chegou a 7% em Serrana. Até onde sabemos, são pessoas que não estiveram em Manaus, na região amazônica ou outro local. Dos pacientes na UTI do HC, isso chega a 15% de positividade”, explica Calado.
De acordo com os pesquisadores, a identificação da nova variante na região, detectada primeiro em Manaus (AM), já era esperada por causa do deslocamento da população entre as cidades.
Procurada, a Secretaria Estadual da Saúde informou que os casos ainda estão em fase de investigação epidemiológica.
Perfil fora do padrão
Segundo o pesquisador, a maioria dos pacientes que contraiu a nova cepa apresentou sintomas diferentes de síndrome gripal.
Também houve uma mudança no perfil da idade e na gravidade do quadro clínico. Entre os casos confirmados, não houve mortes.
“Não são pessoas com sintomas de síndrome gripal, muitos tinham dor torácica. A idade média é de 36 anos, não tinham comorbidades, são pessoas previamente saudáveis, jovens. São casos leves na grande maioria. Dois casos precisaram de internação no CTI. Não tivemos nenhum óbito, e os casos de UTI estão tendo um bom andamento e devem receber alta em breve.”
Mais contagiosa
Embora a maior parte dos pacientes analisados tenha desenvolvido quadros clínicos sem gravidade, os pesquisadores alertam para a transmissibilidade do vírus, que é maior do que a registrada inicialmente.
“A transmissibilidade é bastante alta. Em alguns casos, em uma família de sete pessoas, seis se contaminaram dentro da própria casa. Um outro caso de paciente jovem que se internou, ele passou o feriado de carnaval em um rancho com nove pessoas e as nove se contaminaram. Ela é altamente transmissível em ambientes mais fechados, o que nos preocupa bastante”, afirma o pesquisador.
Dois pacientes com a nova variante são moradores de Manaus que viajaram até Ribeirão Preto. Segundo o médico infectologista Benedito Lopes da Fonseca, que também participa do estudo, em outro caso, uma das mulheres contraiu a nova cepa no início de janeiro.
“Uma paciente ficou internada no começo de janeiro, então é uma situação de que essa variante já estava circulando lá no comecinho de janeiro, antes dessas pessoas de Manaus chegarem.”
Fonseca alerta ainda para a rapidez da infecção no organismo humano após contato com a nova cepa.
“Outro caso muito interessante, que também é de uma transmissão autóctone, é o de uma contactante de uma pessoa que veio de Manaus. Essa pessoa chegou em um dia e teve contato com essa outra pessoa. No dia seguinte, essa pessoa já começou a manifestar sintoma da doença. O período de incubação é de 5 dias, em média, para aquela cepa original. Para essa pessoa contactante, foi de um dia, mostrando o grau de infectividade dessa variante.”
Prevenção
Por causa da alta transmissibilidade da variante, Fonseca afirma que as medidas de prevenção devem ser ainda maiores, para evitar que a curva de casos cresça e pressione o sistema de saúde.
“Por ela ser muito transmissível, ela aumenta o número de casos e essa porcentagem de ocupação no número de leitos aqui. Pode ser que aconteça o que está acontecendo em Araraquara e a gente tenha que transferir pacientes para outras regiões.”
Às 19h38 desta segunda-feira, havia 167 pacientes internados nos 208 leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) disponíveis em Ribeirão Preto – índice que chega a 80,29%.
De acordo com Rodrigo Calado, amostras de mais pacientes serão analisadas pelo grupo de pesquisa para compreender a dinâmica da nova cepa.
“Vamos continuar fazendo o sequenciamento de amostras. Entramos em contato com o Supera Parque, as amostras de Ribeirão são feitas lá, e eles vão nos fornecer amostras, a partir de amanhã, para que possamos fazer essa segurança genômica no município.”
Por G1 Ribeirão Preto e Franca